girl from back then
fel, CANNOTHELP@gmail.com
+ zinevanilli.net.tf
+ cartasparaplutao.blogspot.com


Sonntag, September 11

Quando ela ganhou a caixinha, sorriu. Era bonita, toda colorida, com laços e piparotes e sorrisos dentro e amorzinhos e felicidade declarada. Sorriu, claro, ganhou a caixinha que não comprou, que não pediu, que não procurou - não importava, agora era dela. E ela fez por onde - comprou almofada, comprou redoma de vidro, colocava no sol cinco minutinhos de manhã: não queria mofo, não queria que nada estragasse aquela belezinha toda. E aí, depois de um tempo, a quebraram - a mesma pessoa que lhe deu. Pegaram a caixinha colorida, tiraram a redoma de vidro e pisaram nela. Quebraram a redoma de vidro também, rasgaram a almofada, as penas espalharam, o vidro raspou no braço dela. Chorou, óbvio. Toda criança chora quando acontece maldade, toda criança se dá esse direito. Todo ser humano que vale qualquer coisa. Passou dias olhando a caixinha amassada, rasgada, estragada. A cicatriz ficou no braço, os cacos de vidro da redoma rasgaram mais do que parecia. E, quando as lágrimas secaram, sempre secam, olhou para o chão, catou os cacos de vidro, embrulhou num jornal velho e jogou fora. Aí voltou para olhar a caixinha, toda amassada, toda rasgada, inutilizada, feia, escangalhada. Suspirou, pegou o que restava do que um dia foi só sorriso e guardou. Guardou pra lembrar, guardou porque valia a pena olhar pra caixinha vezenquando e lembrar dos sorrisos e sorrir outro, deixou ali, no canto da gaveta que nunca abria. Só que voltaram, pegaram a caixinha e rasgaram o que tinha restado dela, pisaram no que restou de qualquer lembrança que valia a pena guardar no fundo de tudo. Colocaram fogo, deixaram nada. E ninguém guarda nada, ninguém lembra de nada, ninguém gosta de nada. Muito menos ela. Respirou aliviada por saber que ninguém machuca quando não resta mais nada - e todos os cacos de vidro tinham sido jogados fora. Passou a sorrir por outros motivos.
@ 13:09